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sábado, 6 de setembro de 2014

Caso Grêmio - Racismo ou Injúria racial

Vamos falar do caso da garota que na arquibancada do Estádio do Grêmio proferiu palavras ofensivas ao goleiro do Santos Aranha, no jogo em que o santos bateu o Grêmio pelo placar de dois a zero. Esse caso está sendo propagado e estão massacrando a garota na opinião pública. Acho que ela cometeu um crime, deve ser julgada e pagar pelo que fez.

Aliás, a garota é ré confessa, uma vez que admitiu ter chamado o goleiro do Santos de "macaco". O caso é que a opinião pública, por pura desinformação não consegue entender exatamente qual o crime que a garota cometeu e porque ela está respondendo na justiça.

Estamos lendo principalmente em redes sociais várias justificativas diferentes, dizendo que em estádios ocorrem intolerâncias, onde torcedores ofendem jogadores, árbitros, até membros da imprensa com palavras mais pesadas e que nada acontece, sendo portanto uma punição descabida. Tudo isso por conta da palavra "racismo".

Toda essa situação seria melhor explicada caso quem informa pudesse explicar de forma mais didática exatamente o que aconteceu naquele estádio, naquele dia. Mas ler não é o forte do brasileiro e se o caso fosse devidamente explicado não daria essa polêmica toda e não renderia tanta audiência, sobretudo nos programas estilo "papo de bar", comuns hoje até em canais pagos.

A garota não cometeu o crime de racismo. O que houve no estádio foi o crime de "injúria racial", que é diferente na essência. Explicando: 

Racismo - artigo 20 da Lei nº 7.716/89 - conduta discriminatória dirigida a um determinado grupo ou coletividade. O Racismo só será aplicado quando as ofensas não tenham uma pessoa ou pessoas determinadas, e sim venham a menosprezar determinada raça, cor, etnia, religião ou origem, agredindo um número indeterminado de pessoas. Por exemplo, negar emprego a judeus em uma determinada empresa, impedir entrada de negros em um restaurante. (crime inafiançável e imprescritível)

Injúria Racial - artigo 140, § 3º do Código Penal - Utilizar palavras depreciativas referentes a raça, cor, religião ou origem, com o intuito de ofender a honra subjetiva da vítima. Ela se caracteriza quando as ofensas de conteúdo discriminatório são empregadas a pessoa ou pessoas determinadas, procurando segregar a pessoa por sua cor, religião, ofendendo-a. Desde que o réu pague a fiança, ele poderá responder em liberdade. Com relação à prescrição, o delito prescreve em oito anos.

O crime de racismo é de ação pública incondicionada, ou seja, independe de representação da parte ofendida, enquanto a injúria racial por ser ação privada, precisa de representação da parte que se sinta ofendida em sua honra. 

Respondendo as inúmeras questões que surgem a respeito do tema, caso a pessoa se sinta ofendida ao ser chamada de "macaco", ou a atirarem uma banana em campo, ou praticarem qualquer tipo de injúria, chamando-a de ladrão, ou discorrendo sobre a homosexualidade, atitudes comuns em estádios de futebol, a pessoa deve fazer como o goleiro fez: Identificar o agressor e representar contra ele por injúria (seja ou não racial).

O advogado da garota afirmou que ela não é racista. Mas não é esse o crime que ela responde. Ótimo que ela não seja. Afirmou ainda que ela foi levada a injúria pela situação do jogo e pela torcida. Isso também parece óbvio, quando ofendemos a honra do árbitro e de seus auxiliares quando marcam pênalti contra o nosso time. Ocorre que eles não sentem a sua honra ofendida pelos torcedores. Porém, quando um jogador os ofende, tem uma punição esportiva (é expulso). Caso a acusação seja mais grave, como no caso do ex- zagueiro Junior Baiano, dirigida ao ex-árbitro Oscar Roberto Godói em 1995, insinuando que o árbitro estivesse bêbado, cabe uma representação penal e civil, que foi feita à época.

O Grêmio, por sua vez se diz contra o racismo. É verdade... não impede nenhuma raça de adentrar em seus espaços, dá voz e abriga todas as etnias, raças e cores e mantém uma conduta digna com relação ao tema. Mas deve ser responsabilizado conforme a Lei por qualquer ato de violência ou intolerância praticada por sua torcida em seu estádio ou fora dele, conforme Estatuto do Torcedor.

Não vou expor aqui a garota nem julgar o acontecido com o Grêmio. Acredito que o time do sul do país tem seus advogados preparados para isso e deve se defender e a garota deve responder pelo que fez e seguir a sua vida. Acho somente que as coisas devem estar muito bem esclarecidas para que possamos ter o nosso juízo sobre essas situações. O ato da menina é abominável, como qualquer ato de intolerância dentro dos estádios brasileiros. Contra essa intolerância, seguimos a nossa luta. Tirem vocês as suas conclusões

Marcelo Alves Bellotti

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O que é isso, companheiro?

Em meio a várias manifestações sobre o fato lamentável ocorrido no Peru no jogo que envolveu Cruzeiro e Real Garcilaso, que culminaram na manifestação racista de sua torcida, uma voz destoa na multidão. O ex-jogador de futebol Deco afirmou ao Estadão ter dúvidas sobre a intenção das ofensas a Tinga.

Em entrevista ao "Estado de São Paulo", o ex-jogador afirmou: "É claro que toda manifestação racista deve ser punida e reclamada. Isso não se discute. Mas tenho dúvidas se foi isso mesmo que o torcedor peruano tentou fazer. Acredito mais que a intenção era fazer com que Tinga perdesse a concentração no jogo do Cruzeiro."

Mais do que um contraponto a discussão, Deco revela o pensamento de muitos sobre o ocorrido. Ele parte do princípio de que no Cruzeiro havia mais jogadores negros, como por exemplo, Dedé e Julio Batista e que os insultos só eram dirigidos ao atleta Tinga. Ao pensar assim, ele descaracteriza o fato, tratando-o somente como uma tentativa de desestabilizar o adversário.

Ora, quando se disputa uma partida de futebol, o principal objetivo de um time é derrotar o outro. Para isso, ele precisa se mostrar superior ao seu adversário. Nem sempre ele consegue isso tecnicamente, então ele usa de outras formas variadas, como a transformação do jogo em uma guerra, ou cortar a luz e a água do adversário, jogar em um campo onde a torcida seja próxima ao time adversário. Todas elas são formas de se impor ao adversário, desestabilizá-lo emocionalmente, se mostrar superior!

A mecânica do racismo, da intolerância e da discriminação é exatamente igual... A tentativa de desestabilizar um grupo com as mesmas características, colocando-os em uma condição de inferioridade para se impor perante esse grupo e poder justificar os seus atos perante aos seus semelhantes. Assim surgiram vários movimentos discriminatórios e racistas como o nazismo, o apartheid.

O que aconteceu no Peru foi exatamente isso. Na tentativa de se colocar como superiores ao grupo que estavam enfrentando, e com isso justificar tudo o que tinha sido feito até então para quebrar a estabilidade do time do Cruzeiro, a torcida optou pela manifestação racista. O fato de tê-lo feito somente com um jogador não significa nada. Da mesma forma é feito na Europa, onde as manifestações são mais freqüentes. Lembro de uma manifestação racista feita contra Prince Boateng, em um amistoso do Milan. O time italiano tinha três jogadores negros em campo, mas os insultos eram dirigidos somente ao atleta de Gana.

Ao tentar descaracterizar a atitude dos Peruanos, o ex-atleta Deco se mostra tolerante a esse tipo de manifestação. Ou então falou por puro desconhecimento do que seja racismo, intolerância e preconceito.

O fato de entender a ação da torcida local como parte de um processo de mostrar domínio ao adversário, não exime aos envolvidos uma reação de punição exemplar as atitudes que coloquem seres humanos como superiores a outros, seja qual for a sua pele, raça ou crença. O futebol como um esporte de forte participação popular no mundo inteiro, deve dar esse exemplo.

Deco demonstrou uma visão míope sobre o assunto. Entendendo a miopia como a dificuldade de enxergar a longa distância, Deco conseguiu somente enxergar o fato que ocorreu no campo de jogo, tratando-o como provocação e não enxergando o que está mais a frente disso, traços de intolerância que queremos nos livrar no futebol.

Marcelo Alves Bellotti

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Mais racismo no futebol

Mais um caso de racismo relacionado ao futebol. Esse caso porém não é um "fato isolado", ou seja, uma demonstração isolada de preconceito. A atitude racista está ligada a outras atitudes também condenáveis no nosso futebol.

Ontem a noite, pela Taça Libertadores da América jogaram Cruzeiro e Real Garcilaso, do Peru. A partida foi vencida pelo time peruano, em uma operação que contou com com a participação de todos, além do bom futebol apresentado pelo time peruano.

O time peruano tem sede na cidade de Cusco, no Peru. Porém não tem condições de jogar na cidade, então preferiu jogar em Huancayo. O time peruano começou a dar as suas "boas vindas" ao Cruzeiro já na segunda-feira. Quando o time mineiro foi fazer o reconhecimento do local da partida, as luzes simplesmente se apagaram e os responsáveis alegaram falta de combustível nos geradores.

O time conta também com a "ajuda" da altitude de 3.200 metros e que sempre assustou os times brasileiros. O ambiente de "guerra" também é comum quando falamos de Libertadores da América ou de torneios realizados nas Américas. 

No estádio, o tratamento foi o pior possível. O time da casa deixou os visitantes sem água, atitude típica dos times sulamericanos, inclusive os brasileiros. Porém o ápice da guerra tomou proporções que o time peruano não esperava. Quando o time do Cruzeiro colocou em campo o atleta Tinga, a torcida do time peruano passou a dirigir a ele ofensas raciais, comuns em países europeus.

O árbitro nada fez a respeito, os próprios jogadores do Cruzeiro não cobraram nenhuma atitude e o jogo seguiu até o final. Mas o gesto caiu como uma bomba na imprensa internacional. O caso repercutiu muito mal e pode render ao time peruano uma punição mais dura.

O fato porém não pode ser tratado como "isolado", partindo somente de uma manifestação da torcida, descolada do time que inclusive nem é da cidade. O que aconteceu ontem foi uma soma de fatores de uma "guerra" que o time peruano quis fazer para sair vitorioso do confronto. Deve ser julgado então, o time que deu causa a tudo o que aconteceu desde segunda-feira até depois do jogo. Que não se trate do assunto como um fato isolado da torcida em relação ao time. Tudo foi uma ação conjunta.

Após o jogo, o atleta visivelmente abalado, fez uma declaração bem apropriada com relação ao fato: "Fico muito chateado. Joguei quatro anos na Alemanha e nunca passei por isso. Agora acontece em um país parecido com o nosso, cheio de mistura. Trocaria um título pela igualdade entre raças e classes e respeito", declarou a Radio Globo.

Agora teremos que prestar atenção às atitudes, pois elas falam mais do que palavras. Jogar simplesmente palavras de repúdio na imprensa e na Internet de nada valem. Cruzeiro, CBF, Conmebol e FIFA devem tomar atitudes a esse respeito. Todas elas tem que ser firmes na luta contra o preconceito, a discriminação e a intolerância. Atos como esse tem que ser reprimidos com firmeza para que não tornem a acontecer.

Todos sabemos que essas questões extrapolam o mundo do futebol, elas estão presentes na nossa sociedade. Mas as atitudes que possamos tomar com relação a cada ato que ocorre é o que nos diferencia como cidadão e como ser humano.

Marcelo Alves Bellotti

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O racismo no futebol

O preconceito racial ou racismo é um traço da humanidade, ao longo do tempo. Vem de um modo de pensar que dá importância e distinção a raças humanas, relacionando características físicas hereditárias, inteligência e manifestações culturais, estabelecendo superioridade entre uma raça em relação a outra. Não tem nenhuma base científica, apenas uma crença que justificou, por exemplo a escravidão e o domínio de determinados povos em relação a outros, principalmente em relação aos europeus.

No Brasil, apesar de ser um país composto por várias etnias, o racismo existe e está presente da pior forma, de forma velada e escondida na sociedade. É comum vermos a extrema valorização de pessoas pertencentes a grupos onde existe a presença do racismo para justificar uma posição contrária do povo. Porém quando percebem que estão no anonimato, o que vemos é que o assunto é bem mais delicado.

O objetivo dos parágrafos acima é de ilustrar o que ocorreu com Adilson dos Santos Souza. Adilson é um jogador de futebol de 26 anos, revelado nas categorias de base do Corinthians e que foi contratado pelo XV de Piracicaba em 2010. Em 2012 retornou ao Corinthians por empréstimo e atualmente integra o elenco do XV de Piracicaba.

Pela equipe do Nhô Quim já marcou mais de 35 gols. Quando retornou do Corinthians, Adilson tinha fechado uma transferência para o Ceará, mas em um dos exames médicos apontou um problema cardíaco. Fez um tratamento rigoroso e em Agosto de 2013 foi considerado apto para jogar e assinou novo contrato com o XV.

Porém desde que entrou em campo esse ano, Adilson vive um novo drama na equipe Piracicabana... Algo que ele não previa! 

A sua própria torcida passou a dirigir a ele ofensas raciais. A declaração do atleta para a Radio Onda Live AM relatando o ocorrido é forte e comovente: "Estou muito triste. Por tudo que eu já passei, por tudo que eu já vivi e vivo aqui no XV, chegar nesta situação. Eu não peço para ninguém gostar de mim. Pode me odiar, pode me detestar. Com problema no coração, lutei duas vezes para voltar a jogar. E quando volto para uma equipe que tenho respeito, carinho e um amor muito grande, sou tratado com ofensas pessoais. Isso me deixa muito chateado. Chego em casa e vejo minha noiva triste, minha mãe chorando, prima e tios, todos tristes. Isso porque eles vão ao estádio e ouvem os torcedores me xingando de macaco, urubu, infartado... que eu tinha que ter morrido. Isso deixa todos tristes"

A reação da diretoria do XV foi inesperada... Contrataram um novo centroavante, Raphael Macena, do Comercial que já no ano passado foi destaque do time de Ribeirão. Quanto a Adilson, o diretor do XV disse que ele "precisa de um tempo para esfriar a cabeça" e o retirou da lista de relacionados contra o Palmeiras. Segundo o dirigente, a intenção é de preservar o atleta. "O Adilson não pediu esse tempo, mas a gente que está com ele diariamente sente que ele precisa esfriar a cabeça e colocar as ideias no lugar".

Se o atleta não solicitou, por que o afastamento? Qual a razão de contratar outro centroavante? A diretoria do XV tem todo o direito de fazer o que bem entende com seus atletas e definir o seu elenco. Mas a atitude que demostrou nesse caso, não contribuiu em nada para o atleta. Afastado, triste e sem o apoio da torcida, provavelmente Adilson terá seu contrato rescindido e em breve vai procurar outro clube para jogar.

E o racismo e a intolerância prosseguem fazendo suas vitimas!

Marcelo Alves Bellotti

sábado, 12 de janeiro de 2013

Basta de Intolerância! (ou não?) O que queremos?

O futebol deve ser entendido como um entretenimento popular, onde a sociedade local se reúne em grupos em estádios para assistir partidas de futebol. Os grupos formados nos estádios, por inúmeras vezes tomam atitudes se protegendo na condição da ação anônima que em geral não seriam tomadas individualmente.
Os exemplos são vários... O povo catalão se reunia para os jogos de seu time em plena ditadura para gritar "Barcelona!". No Chile, também em pleno golpe militar do ditador de plantão, General Pinochet, um jogo de futebol chamou a atenção. Um jogador curiosamente tinha o mesmo nome do ditador. O jogador não estava em um bom dia, então o estádio inteiro gritou: "Fora Pinochet!"

Porém o que aconteceu no terceiro dia desse ano de 2013 no futebol foi mais uma demonstração de intolerância coletiva. Protegida pelo anonimato, torcedores partiram para a ignorância coletiva comum em países Europeus de demonstração de racismo.

O jogo era apenas um amistoso entre o Milan e o Pro Patria, um clube de futebol da cidade de Busto Arsizio, cidade na região da Lombardia com população de cerca de 80 mil pessoas.

O amistoso era pra servir de preparação para a continuidade do Italiano e para preparação do Milan. Porém aos 26 minutos do primeiro tempo, após ouvir várias canções de cunho racistas e a típica "imitação de macacos" dirigidas a ele, o jogador ganês da squadra rossonera Kevin-Prince Boateng abandonou a partida, visivelmente abatido.

Até por se tratar de um amistoso, a reação que se seguiu foi inusitada, porém corajosa. Todo o time Milanês acompanhou o seu jogador e também deixou o campo. Alguns jogadores do time rival tentaram fazer com que o jogador mudasse de ideia  mas aos poucos, também deixaram o campo de jogo.

A atitude de ambos os times ainda provocou aplausos de boa parte dos torcedores presentes ao estádio. Cinco torcedores do Pro Patria foram detidos e o clube foi punido com um jogo realizado com portões fechados.

O presidente do Pro Patria lamentou a reação de seus torcedores. "As pessoas que participaram dos cânticos racistas foram isoladas. Estas pessoas não eram nossas conhecidas do estádio e usaram este evento para arruinar uma celebração do futebol. O clube não pode fazer nada quando encara estes incidentes. A decisão do Milan (de cancelar o jogo) foi compreensível"

O Milan tratou o episódio como um fato isolado, mas marcou sua decisão em não tolerar situações como essa. Em nota oficial publicada em seu site afirmou "Busto Arsizio é uma cidade civilizada, ninguém pode negar. O Milan vai retornar de bom grado e com a cabeça em pé até lá, mas os cantos racistas daquelas pessoas pequenas hoje não poderia ficar impune. Em um certo ponto, o Milan disse “chega”. Aqueles que compartilham a cor do coração de Boateng, Muntary e Niang não podiam aguentar mais e decidiram que era hora de ensinar uma lição a estes tolos"


Pena que esse fato só tomou essa proporção por ser apenas um amistoso, sem maiores consequências  A UEFA e a Federação italiana deveriam ser mais efetivos no combate a intolerância. Ainda mais se tratando de Europa, onde essa prática é comum e já levou o mundo a uma grande guerra!

Situação vergonhosa que só mostra que mesmo em 2013, nada mudou!

Marcelo Alves Bellotti