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domingo, 5 de janeiro de 2014

Copa SP movimenta o Interior e pode "salvar" o futebol

Mais um ano de Copa São Paulo de Futebol Junior... No total, chegamos a 45ª edição. E contando um pouco da história dessa Copa. Ela surgiu em 1969 como um torneio sub 20, e era organizada pela Secretaria Municipal de Esportes. A Taça São Paulo, como era chamada, comemorava o aniversário da cidade e tinha sua partida final jogada em 25 de Janeiro.

A partir de 1987, o então prefeito Jânio Quadros decidiu que o município não arcaria mais com as despesas da  Copa, e entregou a organização a Federação Paulista de Futebol. O que vimos a partir de então foi um outro torneio.

A FPF levou as sedes ao interior de São Paulo, estendendo mais convites as federações de todos os estados. Hoje a Copa São Paulo chega a sua 45ª edição com 104 times divididos em 26 grupos.

As cidades sede fazem as suas apresentações, sempre destacando a importância do futebol de base e mobilizando a cidade para participação.

É claro, aqui ninguém quer tapar o sol com a peneira... o sistema de classificação para a Copa São Paulo não é técnico, e sim político! Equipes são indicadas por suas federações que os fazem da maneira que bem entendem. A própria escolha das sedes não obedecem qualquer critério, apenas o político! O evento é muito mal vendido pela FPF, que distribui para redes pagas e para a Rede Vida em sinal aberto, somente se certificando que a final seja transmitida pela principal emissora do país, desde que envolva pelo menos um time que faça crescer o interesse das TVs.

Então, para a FPF é mais um evento televisivo, tanto que ela sem qualquer preocupação programa o início dos seus campeonatos sem que o seu campeonato de base acabe. Obviamente o interesse dos torcedores cai demais.

Mas as cidades escolhidas fazem a sua parte, como mostra o exemplo da cidade de Penápolis. Essa festa do interior faz com que o futebol ganhe novos adeptos. Ao tentar transformar o futebol em produto televisivo e elitizado, as federações podem ficar mais ricas, mas o futebol vai perdendo o seu interesse como esporte de massa.

Recentemente a Pluri Consultoria juntamente com a Stochos Sports realizou uma pesquisa para determinar o tamanho das torcidas no Brasil. O resultado não foi diferente de outros institutos, a não ser a divulgação de que hoje no Brasil, o maior contingente de pessoas não torcem para nenhum time de futebol. Para ver o resultado da pesquisa clique aqui.

Para que se tenha uma ideia do que pode ser o tamanho do estrago feito pela elitização do futebol, o que transformaria por exemplo o Flamengo como o time de maior torcida em Manaus, sendo que o último jogo que eu achei registrado do Flamengo em Manaus foi em 1996, um amistoso contra o Corinthians de apresentação do atacante Bebeto.

Se o público em Manaus não tiver um campeonato de bom nível, que faça com que seu torcedor vá ao estádio, ou que estimule suas crianças a praticarem o esporte, com certeza um outro esporte substituirá o futebol naquela praça.

Para quem acha isso difícil de acontecer, basta citar o exemplo da cidade de Leme. A cidade tem um time de futebol tradicional, a Lemense, que disputava o campeonato Paulista. Porém a falta total de um incentivo, de investimentos sério para levar o nome da cidade fizeram com que o clube pedisse licença na FPF. Aliado a esse fato, a prefeitura construiu o primeiro campo oficial de Futebol Americano no país. 

Hoje, o público em Leme assiste normalmente seus ídolos do futebol pela TV e se o futebol americano se difundir como esporte no Brasil, logo as crianças da região estarão em Leme para treinar o esporte americano. Hoje essas crianças já acompanham a NFL. Mas o que trás a identificação com o esporte é que a cidade que ele mora vive esse esporte... ele pode torcer para um time da cidade dele... se sente representado.

Obviamente isso requer tempo e investimento. O futebol hoje é um produto essencialmente de mídia e fundamentalmente feito para um público de classe média. Verificamos isso quando vamos comprar qualquer artigo esportivo (Chuteiras, camisas de clubes, bolas, etc). 

Acho que o caminho para o futebol seguir como manifestação popular está nas federações... está no apoio ao futebol em todas as cidades, em levar o público ao estádio para ver o time da sua cidade, que joga sempre em dia e horário diferente do que o time grande que passa na TV... é fazer com que o time da cidade tenha a chance de ganhar um torneio, para que os pequenos torcedores se identifiquem com o futebol, tenham gosto de ver o time de sua cidade.

A pesquisa da Pluri ainda mostra que Flamengo, Corinthians, São Paulo, Vasco e Palmeiras representam 49,5% dos torcedores no país. Fazer futebol pra esses clubes é fácil, mas privilegiá-los na mídia faz com que os times restantes percam a capacidade de captar investimentos. Sem dinheiro, esses clubes simplesmente fecham e seguirão fechando. O futebol, enquanto esporte de massa, vai fechando junto.

As federações podem mudar isso... hoje a FPF distribui R$ 15 milhões para 4 clubes disputar o torneio regional e R$ 2,4 Milhões para 16 clubes no primeiro nível (A1). No segundo nível (A2) ela distribui R$135 mil e 70 bolas. A distribuição desigual não permite aos clubes disputar o campeonato com os grandes. É óbvio que tem que haver distinção entre as divisões, mas elas não deveriam ser tão grandes. Cabe a FPF cuidar do produto futebol e dos interesses dos seus associados, e não dos interesses da TV, ou de pequenos grupos, que sequer dão valor ao regional, que fazem comissões e se unem para não participar mais do torneio regional e assim elitizar ainda mais o futebol no Brasil.

Nesse sentido, a Copa São Paulo ganha uma importância para as cidades sede, é a oportunidade que elas tem para difundir a prática do futebol nesse centros menores e cuidar do esporte como inclusão social, formando atletas paras os grandes centros, seja no Brasil ou no exterior e acima de tudo formando cidadãos, que terão orgulho de acompanhar o time da sua cidade.

Marcelo Alves Bellotti

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Reflexão de Natal


Fim de ano, especialmente o Natal é uma época de reflexão. Pensar em tudo o que aconteceu não somente no último ano, mas também em anos anteriores. É comum pensarmos nas passagens de ano como novos ciclos em nossa vida, o que nos dá capacidade de renovar e de inovar.

No futebol, propriamente dito estamos em um período pré Copa do Mundo, com um grande evento mundial no Brasil marcado para 2013, a Copa das Confederações e finalmente em 2014 teremos o maior evento mundial do futebol no planeta, a Copa do Mundo.

O prestígio internacional do futebol Brasileiro está extremamente baixo na seleção nacional. Atualmente o Brasil encontra-se na medíocre 18ª posição, atrás dos sul americanos Argentina (3º), Colômbia (5º), Equador (13º) e Uruguai (16º). Muitos tentam explicar o fato dizendo que o Brasil não disputa torneios oficiais, como as eliminatórias por exemplo. Mas em 1997 a equipe brasileira também não disputou as eliminatórias e seguiu liderando o ranking da FIFA.

Em contrapartida, os clubes brasileiros estabelecem um paradoxo com a seleção. Todos os campeões dos torneios sul-americanos em 2012 foram brasileiros. O Santos ganhou a recopa, o Corinthians a Libertadores e o São Paulo ganhou a Sul-americana.

Isso reflete bem o pensamento do torcedor brasileiro no momento. Hoje em dia, a maioria do torcedor e uma boa parte da imprensa não apóiam a seleção nacional e acredita que ela atrapalha os clubes e os campeonatos nacionais, inviabilizando investimentos dos clubes em grandes jogadores.

O fato é que há um grande bolo de dinheiro que envolve as transmissões de eventos esportivos no mundo de hoje. Ninguém quer ficar fora desse bolo, então cada um defende o seu interesse, sem se importar com o interesse do produto futebol.

Hoje o Corinthians só pensa em internacionalização da sua marca... Dirigentes dos principais clubes em São Paulo brigam pelo direito de disputar amistosos com grandes clubes no mundo. Mas a CBF não abre mão do seu campeonato de pontos corridos com 38 rodadas nem a Copa do Brasil, que nesse ano terá a participação de todos os grandes. O Paulistão segue com as suas 19 rodadas na fase de classificação.

Tudo isso com um campeonato atropelando o outro, um interesse atropelando o outro... Sem planejamento, pois ninguém quer abrir mão do seu objetivo em favor do produto futebol.

Planejamento, profissionalismo nesse caso são substituídos por interesses pessoais e vaidades, privilegiando somente a sua própria agremiação em detrimento das demais. Isso levará os grandes clubes brasileiros a um patamar internacional, transformará finalmente o futebol em um esporte economicamente rentável.

Mas há um preço para tudo isso. A transformação do futebol em um esporte de elite fixará preços cada vez mais altos para que as pessoas possam acompanhar seus jogos. Estádios serão transformados em grandes Arenas, com estruturas de Shoppings e Espaços de lazer. Recursos eletrônicos e as 185 câmeras espalhadas pelo campo de jogo garantem que nenhuma decisão errada será tomada nos 90 minutos. Regulamentos serão feitos de modo a privilegiar os times de grandes torcidas, garantindo a esses recursos para que sejam cada vez maiores e que possam trazer mais torcedores para assim aumentar a audiência de quem transmite os jogos...

É o começo do fim do futebol nos centros menores. O que hoje já é difícil, em muito pouco tempo se tornará inviável e muitos times desaparecerão. Estruturas profissionais já se aproveitam disso hoje e entram no futebol do Interior somente para formar jogadores na base, aproveitando-se da lei para lucrar como clube formador e repassar jogadores para clubes tanto no Brasil como na Europa.

E isso parece ser um caminho sem volta... Todos entendem que esse é o futuro para o futebol brasileiro... Meia dúzia de times muito ricos, uns poucos times com condições de fazer frente a esses clubes e torcedores de sofá... Uma geração que só consegue analisar futebol pelo vídeo tape e não sabe a diferença entre táticas e esquemas de jogo.

Bem vindos à modernidade!!!

Marcelo Alves Bellotti